Aposentada se forma em artes cênicas aos 78 anos no DF: ‘Sonhos não envelhecem’


Moema de Osiris conta que queria ser atriz desde juventude, mas seguiu carreira como professora de educação física. Formatura está marcada para 24 de setembro. Moema de Osiris em um ensaio em homenagem a Dulcina de Moraes
Arquivo pessoal
Aos 78 anos, a aposentada Moema de Osiris terminou o curso de artes cênicas. O diploma é uma conquista que a moradora do Distrito Federal almejava desde a juventude, mas que foi deixado de lado em função da família e da carreira como professora de educação física.
Faltando pouco para a formatura, marcada para o dia 24 de setembro, ela disse ao G1 que “os sonhos não envelhecem, apenas esperam a hora de serem realizados”.
“Eu sempre tive esse sonho de fazer teatro. Quando me senti livre, independente e podendo para pagar uma faculdade, eu disse por que não?”
Moema vai se formar pela Faculdade de Artes Dulcina de Moraes, criada pela atriz que morreu há 25 anos, e fez história no mundo das artes.
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Professora com coração de artista
Moema de Osiris conclui, aos 78 anos, curso de artes cênicas
Arquivo pessoal
Moema nasceu em Salvador, mas cresceu em diversos cantos do pais. O pai dela era médico do Exército Brasileiro e família vivia mudando de cidade, lembra a baiana.
A primeira vez que subiu ao palco foi em concurso de talentos em Aquidauma, no Mato Grosso do Sul. Moema tinha 4 anos.
“Foi em um programa de calouros. Não sei se cantava bem, mas eu ganhei o prêmio”, conta.
Moema diz que desde criança decorava o conteúdo dos discos de histórias infantis e fazia “todas as vozes e personagens, na íntegra”. Mas, na adolescência, lembra que “esse amor ficou guardado na gaveta da censura doméstica”.
Como não poderia seguir carreira artística, ela se formou em educação física. Durante 50 anos, foi professora e, na tarefa de educar, diz que usava o talento de artista a seu favor.
“Geralmente, as pessoas associam educação física a jogar bola. Mas ela é um leque muito grande de possibilidades. Eu sempre estive na vertente do trabalho corporal, da expressão corporal, da dança e da ginástica. Isso tem muito a ver com o teatro”, diz ela.
Teatro é ‘chama que não se apaga’
Moema de Osiris na peça “Roga por Nós, Mainha” criada durante o curso de artes cênicas da Faculdade Dulcina de Mora
Arquivo pessoal
Ainda trabalhando como professora, cerca de 30 anos depois de subir ao palco pela primeira vez, Moema voltou para os holofotes. Desta vez, em Nova Friburgo, no Rio de Janeiro.
Na época, a rotina dela era dividida entre o trabalho, o cuidado com a família e a atuação em um grupo de teatro amador chamado GAMA-RJ. “Inicialmente, fui convidada para coreografar uma peça infantil e passei a fazer parte do grupo, como coreógrafa. Depois, eu tive que substituir uma atriz que, da noite para o dia, abandonou o trabalho. Após essa troca, passei a fazer parte do grupo também como atriz, porque vieram outras peças e montagens”, recorda.
Com o grupo, Moema cultivou o sonho de ser atriz e viajou, durantes as férias escolares, apresentando peças de teatro pelo Brasil. A capital federal foi um dos destinos da trupe. Em Brasília, o GAMA-RJ ficou em cartaz no Teatro Galpão, na 508 Sul – onde hoje funciona o Espaço Cultural Renato Russo.
Mas, em 1978, ela teve que deixar o sonho de lado e se mudar para a cidade do Rio de Janeiro. A mudança foi para atender melhor o filho mais novo, que nasceu com paralisia cerebral.
No Rio, a professora diz que até chegou a participar de um grupo de teatro, mas foi excluída do papel por não ter formação acadêmica.
Um novo palco no Planalto Central
Moema de Osiris (blusa branca e calça preta) junto com a turma de calouros do curso de artes cênicas da Faculdade de Artes Dulcina de Moraes
Arquivo pessoal
A atriz amadora acabou longe dos palcos e atuava apenas nos bastidores, ajudando na montagem de espetáculos. Em 2016, morando novamente em Brasília, ela conta que conheceu um grupo de teatro do Sesc, na região do Gama.
“Quando eu vi, já estava participando de um espetáculo. Aí tomei gosto, de novo pelo, palco”, conta.
Porém, mais uma vez, ela precisou fazer uma pausa no sonho. Desta vez, para cuidar da mãe, que estava doente.
“Um dia, saí pra fazer uma caminhada em direção ao Conjunto Nacional, onde eu ia tomar um sorvete. Passei em frente a faculdade Dulcina de Moraes. Quando eu olhei aquela placa, eu lembrei que quando eu vim pra Brasília, em 1999, uma amiga falou: ‘Moema, você tem que dar aula na Dulcina, trabalho de expressão corporal’”, recorda.
Nesse momento, ela diz que tomou coragem e subiu as escadas da faculdade, localizada no Conic, região central de Brasília. “Eu subi pra ver se tinha oficina pra idosos. Eu estava entristecida, porque tinha rompido com o Sesc porque não conseguia frequentar por conta da distância”.
Mas, ao perguntar sobre oficinas, a resposta da funcionária do teatro impactou Moema. “Ela disse que não tinha oficina, e sim vestibular”, conta.
Moema disse que perguntou se poderia fazer, por causa da idade. “Ela disse: ‘Claro’. Me escrevi. Coloquei o texto ‘Beijo no afasto’, de Nelson Rodrigues, debaixo do braço e fui pra casa. Ensaiei, fiz o vestibular e passei. Agora estou me graduando, graças a Deus”, comemora.
Por causa da pandemia do novo coronavírus, antes de se formar, Moema precisou fazer três semestres de aulas remotas. Segundo ela, o período foi difícil, mas concluído com sucesso.
Agora, com diploma de artes cênicas, ela diz que quer seguir a carreira de atriz. “Atuar significa você emprestar sua voz e seu corpo pra viver outros personagens, além de você mesmo. Ser uma camaleoa. Poder ser uma metamorfose. Uma hora ser uma coisa, na outra mudar completamente. Ter o contato com o público e passar emoção”, define.
*Sob supervisão de Maria Helena Martinho.
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