Cultos com alucinógeno da jurema florescem no Nordeste

0 0
Read Time:8 Minute, 28 Second

Rituais indígenas centrados na planta, próximos de umbanda e candomblé, resistem à repressão e ganham adeptos

Colunista da Folha e autor de livros como “Promessas do Genoma” (Editora Unesp, 2007) e “Psiconautas – Viagens com a Ciência Psicodélica Brasileira” (Fósforo, 2021)

[RESUMO] A religiosidade centrada na jurema, planta da caatinga que contém o psicodélico DMT, resistiu à intolerância e à perseguição estatal e hoje é revalorizada por indígenas e pelo misticismo urbano. Autor relata sua participação em rituais, que revelam a combinação da origem indígena com influências africanas e o catolicismo popular que caracteriza as cerimônias. Esta é a terceira reportagem da série A ressureição da jurema.

A mestra juremeira Ritinha, havia pouco incorporada no dono da casa, André Luiz do Nascimento, 50, se aproxima do jornalista deitado na esteira verde de ioga. De pé, estende as mãos sobre o corpo estirado como se tateasse uma parede invisível.

Após alguns minutos se ajoelha e pede licença para “fazer uma cura”. Com juízo e ceticismo desligados após o segundo despacho (dose) dos chás de jurema-preta (Mimosa tenuiflora) e arruda-da-síria (Peganum harmala), o repórter concorda.

0
Ritual da Lua Cheia em Baía da Traição (PB), na Terra Indígena Potiguara – Claudia Kober/Folhapress

Ritinha percorre-lhe o peito com as mãos, detém-se sobre o pulmão direito, e elas começam a tremer. A encantada se abaixa e encosta a boca na camiseta, assoprando ou sugando o ar —é difícil precisar.

As mãos voltam a vagar, detendo-se a seguir sobre o baixo-ventre. Novo tremor, mais intenso. A sensação, entre intrigante e divertida, é de conforto, cuidado, quase um afago. Novo sopro ou sugação.

Ritinha se crispa e exige, aos brados, que lhe alcancem uma vela branca. Esfrega a parafina com vigor na barriga do jornalista, depois quebra o bastão em quatro pedaços, que permanecem unidos pelo pavio, e joga longe.

Levanta-se, sem dizer palavra, e retoma a caminhada pela sala com o chapéu branco de aba larga enfeitado por lenço colorido. De quando em quando, gargalha.

Pelo menos outras três pessoas entram em estado mediúnico durante a cerimônia de catimbó, incorporando mestres e caboclos da jurema. A casa térrea de André Luiz fica na Redinha, bairro periférico de Natal (RN).

O transe mais duradouro toma o oficiante, Rômulo Henrique Pereira Angélico, 41. Ele recebe seu mestre-guia Manoel Germano, que dispensa ensinamentos entre uma e outra linha (cânticos) entoadas com voz potente de baixo.

Um dos pontos invoca Exu, entidade da umbanda com que usualmente se abre uma mesa de jurema. Das 22h às 5h, os cantos percorrem amplo espectro sincrético, de caboclos como Pena Branca e Jurema a Nossa Senhora e São Francisco.

Germano, incorporado, faz o corpo de Rômulo claudicar pela sala. Às vezes de chapéu preto na cabeça e cachimbo na boca, falando com sotaque acaipirado.

Há uma dúzia de pessoas na casa, além dos mestres Rômulo e Breno Gabriel no comando da cerimônia. De novatos no catimbó e na jurema, só o jornalista e duas moças argentinas.

Enquanto esperam a chegada de Sydma, mulher de Rômulo, ambos esclarecem os estreantes sobre o efeito combinado das duas beberagens. As consagrações aconteceriam por três vezes durante a noite, e cada um tomaria só quando quisesse.

Poderiam ter visões, exemplificam, vomitar e até experimentar a sensação de morrer, mas tudo passaria a seu tempo, e a limpeza seria benéfica para todos. Segue-se uma rodada de “anamnese”, em que cada pessoa pode dizer o que a aflige ou qual seu propósito ali.

Mestre Breno soa mais tranquilizador, papel que desempenha durante as sete horas da sessão. Encanta-se com o título do livro do jornalista, “Psiconautas” (Fósforo) e diz que a navegação chegaria a bom porto naquele dia. “O barco tem dono, André Luiz, capitão, Rômulo, e contramestre” —o próprio Breno.

Ele traja um gorro de penas azuis com uma maior, amarela, se destacando no alto, e uma canga nos ombros com estampa de penas de pavão, simbolizando para ele um manto sagrado tupinambá. Pita jurema em um vaporizador, espalhando fumaça de odor adocicado, e na mão traz uma espécie de borduna.

Iriam viajar por um mar de ideias e pescar, ensina o mestre, com todos retornando seguros à terra firme. Entoa a canção “Suíte do Pescador” de Dorival Caymmi:

“Minha jangada vai sair pro mar/ Vou trabalhar, meu bem querer/ Se Deus quiser quando eu voltar do mar/ Um peixe bom eu vou trazer/ Meus companheiros também vão voltar/ E a Deus do céu vamos agradecer”.

A consagração de dois chás é inovação neoxamânica em cerimônias urbanas que reivindicam raízes no catimbó. Os rituais indígenas empregam o chamado vinho, à base de jurema-preta, algum tipo de álcool e mel, além de outros ingredientes e ervas mantidos em segredo, mas que não necessariamente exercem impacto psicodélico.

No caso da noite na Redinha, os chás servidos se encaixam no conceito de “juremahuasca”. Esse é o apelido da mistura de jurema com arruda-da-síria que reproduz a mágica do chá usado em religiões como Santo Daime, Barquinha e União do Vegetal.

ayahuasca resulta da longa fervura de duas plantas, o arbusto chacrona (Psychotria viridis) e o cipó mariri, ou jagube (Banisteriopsis caapi). Na juremahuasca, usa-se a jurema em lugar da chacrona como fonte de DMT (dimetiltriptamina), substância propriamente alteradora da consciência.

A arruda-da-síria faz as vezes do mariri: fornecer betacarbolinas, compostos capazes de inibir uma enzima (monoaminaoxidase, MAO) que, de outra maneira, degradaria a DMT no trato digestivo, impedindo sua chegada à corrente sanguínea e ao cérebro.

A arruda-da-síria, como o nome indica, nem mesmo é nativa do Brasil. Cresce nas regiões desérticas em torno do Mediterrâneo. Pode ser comprada pela internet, no entanto, como fazem neoxamãs juremeiros.

O chá amarronzado feito por mestre Breno, de sabor vegetal peculiar, é tomado por volta de meia hora antes da jurema. A segunda bebida é negra e muito amarga, e seu feitio coube a mestre Rômulo.

O efeito combinado pode ser descrito como muito semelhante ao da ayahuasca, em que a DMT já vem misturada com inibidores de MAO, e ao mesmo tempo muito diferente. Mesmo com a ingestão só da bebida com arruda-da-síria já dá para sentir um tremor interno.

A planta mediterrânea contém os alcaloides harmina e harmalina, batizados a partir do nome científico Peganum harmala. Eles também atuam como ansiolíticos, baixam a pressão arterial e aumentam a frequência cardíaca.

As primeiras manifestações após beber a jurema são visuais e mais luminosas que as de ayahuasca, na experiência do jornalista: de olhos fechados, surgem pontilhados faiscantes e manchas coloridas, mas que não preenchem todo o espaço visual, como fariam se aparecessem em um caleidoscópio.

Logo elas evoluem para imagens mais tridimensionais, “arquitetônicas”, como palácios de vidro negro e pontos de luz. A parte intensamente visual não dura muito.

Para favorecer a introspecção, Rômulo toca em uma caixinha de som conectada ao laptop músicas meio eletrônicas do campo esotérico (andina, indiana, ameríndias e cristãs). Mesmo tentando dirigir a atenção para figuras masculinas, como irmão ou pai, vêm apenas mulheres à tela da mente.

Havia tocado a “Oração de São Francisco” e, talvez por isso, o tema predominante torna-se o perdão. Ocorre um pedido silencioso de desculpas para uma ex-namorada, por falta de empenho em produzir uma reportagem que talvez a ajudasse na inclusão em um grupo de tratamento experimental para câncer.

Esse é o momento de maior emoção, ainda que não carregado de culpa. Mais um lamento doído e sereno por não lhe dar o amparo que em nada teria alterado o curso da enfermidade, mas que decerto ela teria apreciado.

Em 2005, dando aulas em uma escola pública do litoral sul do Rio Grande do Norte, o professor de história Rômulo pouco sabia de catimbó ou jurema. Mal as diferenciava de candomblé ou umbanda.

A rede local de ensino organizou uma feira de ciências com o tema Religião em Canguaretama, e só apareciam temas cristãos. O futuro mestre propôs cultos de raiz africana, e meros 14 de 2.600 alunos se interessaram.

A partir daí, aprofundou-se no estudo da religiosidade do Nordeste, que o levou a ler os trabalhos sobre catimbó de Câmara Cascudo e Mário de Andrade. Também começou a visitar comunidades indígenas e terreiros.

Entrevistava catimbozeiros e tomava notas. Em uma dessas conversas, sentiu o que chama de “pré-mediunização”, entendendo-a como um chamado para iniciação.

A partir de 2009, aprendeu com pajés, mestres juremeiros (entre eles Breno e Maria Fernandes) e da umbanda (Francisca Bezerra Honorato, a mestra Neta do terreiro de umbanda Ogum-Odé) a preparar a jurema com água, mel e variedades silvestres de caju e maracujá.

Em 2013, abriu seu próprio terreiro, o Centro Espiritualista Casa do Sol Nascente do Rei Malunguinho. O terreiro terminou fechando após um episódio de vandalismo, em que objetos de culto foram quebrados e animais de estimação, mortos. “Não faço sacrifícios“, esclarece Rômulo.

No momento, ele trabalha para abrir um novo espaço de catimbó, o Centro Espiritualista e Beneficente Mestre Manoel Germano. A cerimônia na Redinha fazia parte do esforço de levantamento de fundos.

“A jurema é muita coisa: vários reinos, a bebida, a planta, a cabocla —um mundo”, explica o mestre. Cada reino encantado é governado por um rei, e, em suas cidades, residem mestras e mestres recebidos nos rituais, como o Manoel Germano incorporado por Rômulo. “O chá favorece a comunicação com esses seres.”

São chamados de mestres tanto os vivos quanto os falecidos. Após a morte neste mundo, eles vivem encantados em cidades e reinos específicos, de onde são invocados nos pontos cantados para que venham ajudar nos trabalhos.

Têm personalidade própria, são “ancestrais divinizados, homens e mulheres que caminharam aqui na Terra”, segundo Rômulo: Maria do Acais, Zé Pilintra, Caboclo Pena Branca, e assim por diante.

“Outros são animais ou espíritos de plantas”, explica o catimbozeiro. “Não pode ser algo imaginário, apenas, quando se manifesta em curas reais, em recados [conselhos] que se realizam.”

SÉRIE A RESSURREIÇÃO DA JUREMA

Marcelo Leite apresenta a pesquisa da UFRN sobre o efeito antidepressivo da DMT, encontrada na jurema-preta, e os rituais religiosos do Nordeste que empregam a substância

Happy
Happy
0 %
Sad
Sad
0 %
Excited
Excited
0 %
Sleepy
Sleepy
0 %
Angry
Angry
0 %
Surprise
Surprise
0 %

Average Rating

5 Star
0%
4 Star
0%
3 Star
0%
2 Star
0%
1 Star
0%

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado.