A POLÍTICA E O FUTEBOL

Sempre achei o futebol desinteressante. Sempre, não: escutei pelo rádio a Copa do Mundo de 1958 e a de 1962, com o mesmo entusiasmo de quem vivia num país que estava dando certo. Há quem negue – provavelmente, gente que não viveu aqueles anos. O Brasil ia dar certo, sim – aliás já estava, era só olhar em volta. Não só esporte, mas música, cinema, arte, literatura, arquitetura – enfim, cultura – eram poderosos, eram influentes no Primeiro Mundo. Chegando, logo ali, vinha a indústria pesada, estradas para integrar o território, monopólio estatal do petróleo. Futuro ao qual estávamos chegando rapidamente, e o grande símbolo de tudo isso era Brasília, uma demonstração de força de vontade e otimismo inéditos no planeta.

Portanto, meu entusiasmo era mais com o Brasil, com o clima de confiança e esperança que se vivia então, do que com o futebol.

Bom, confiança e esperança, como tudo o que é sólido, desmancharam no ar. Chegamos, ao longo de décadas de incompetência governamental, ao que somos hoje: um país despencando rumo ao Terceiro Mundo – em alguns aspectos, já chegamos lá.

Evidente que, no futebol como nas outras áreas, a boa fase decorrera das anteriores – o que se pode verificar, ponto a ponto: uma curva ascendente que não carece de infográfico para constatar. O que é mais difícil entender, é como despencamos para a situação de hoje, de decadência, pessimismo e – coisa perigosíssima – a vontade de largar tudo e ir embora para lugares menos sacanas, muito presente nos jovens atuais. Ou o “secreto” índice dos suicídios.

Se, em todos os itens mencionados no primeiro parágrafo, o panorama atual é de mediocridade absoluta, sem o que se entende por renovação constante e ascendente, não vou atribuir, é claro ao futebol, mas vê-lo como emblemático da situação.

De fases antigas e recentes, ficou-nos  um modo de ver as coisas “futebolístico”: quem não for corintiano é palmeirense; quem não for flamengo é fluminense quem não for coxa é atleticano – e assim por diante, essas dialéticas estão em cada estado brasileiro – o que não teria a menor importância, se fosse restrita ao esporte.

A volta de supostas ideologias, introduzidas segundo essa mentalidade, nos anos da Guerra Fria entre o bloco americano e o soviético, mantida – e ainda não estudada – pela imprensa e pela indústria de comunicações americana, ressurgiu com tudo. É simplesmente deprimente, terrível, ver como as pessoas optam pelo fascismo como antídoto de um suposto comunismo – que nem existe mais.

Setenta anos depois, temos um McCarthy em cada esquina – caçando bruxas que já foram exorcizadas há décadas. Como deGaulle definiu brilhantemente, “o Brasil não é um país sério”. Como se confirma na vontade de rir dos que ainda embarcam nessa ridicularia.

Com Agências

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