Câmaras do Alto Tietê terão 25% mais mulheres na próxima gestão comparado à atual, mas elas são apenas 9,37% do total de vereadores na região

Total de parlamentares do sexo feminino passa de 12 para 15 do atual mandato para o próximo. O número de mulheres eleitas para o cargo de vereadora na próxima gestão municipal no Alto Tietê cresceu 25% em relação ao mandato atual, de 12 para 15, na soma das dez prefeituras. No entanto, o percentual feminino comparado ao total de 160 cadeiras no Legislativo é de apenas 9,37%.
Os eleitores do último domingo elevaram também o número de Câmaras Municipais que contam com ao menos com uma mulher. Atualmente, as cidades de Guararema e Poá não têm mulheres entre os parlamentares. Já no ano que vem, com o início do novo mandato, apenas em Ferraz de Vasconcelos não terá nenhuma vereadora.
Dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) mostram que as mulheres eram 805 entre os mais de 2,4 pleiteantes ao cargo de vereador este ano na região, o que representa 33,4% dos candidatos. O censo de 2010 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas (IBGE) mostrou que, entretanto, a população feminina no Alto Tietê representava 51% do total.
No parágrafo 3º do artigo 10º da lei Lei nº 9.504/1997 há a garantia de que cada partido ou coligação deva preencher no mínimo de 30% e o máximo de 70% para candidaturas de cada sexo. No entanto, essa regra não vale para a composição das casas de leis. Assim, é mantida a desigualdade entre os parlamentares.
Reivindicação social
Fernanda K. Martins é antropóloga e coordenadora da área de desigualdades e identidades do InternetLab. Ela avalia que a sociedade se estrutura a partir de uma forte desigualdade de gênero, o que tem implicações diretas na forma como as arenas públicas serão ocupadas e em quais sujeitos sociais terão lugar para falar e serem ouvidos.
Apesar de movimentações intensas de reivindicações sociais nos últimos anos, o surgimento de políticas que distribuíssem recursos e buscassem dar mais condições para que as mulheres fossem eleitas, pontua Fernanda, elas ainda esbarram em um cenário social que teima em tentar manter as mulheres nos lugares que supostamente lhes pertencem.
Com isso, destaca, é possível encontrar tanto homens quanto mulheres que têm dificuldades de votar em mulheres, que não enxergam as mulheres como uma opção de candidata. Essa é uma conscientização que se constrói aos poucos e também muito aos poucos é pautada em espaços sociais de uma forma mais ampla.
“O número baixo das mulheres eleitas passa por isso, passa pela forma como essas hierarquizações sociais se constroem. É importante ainda pensarmos que não falamos apenas de poucas mulheres eleitas. Quando destrinchamos o sujeito coletivo ‘mulheres’ e pensamos em multiplicidades, isto é, em mulheres negras, mulheres lésbicas, mulheres bissexuais, mulheres pobres, mulheres de movimentos sociais, mulheres transexuais, o número de mulheres pertencentes a esses grupos sociais específicos que ocupem essas posições políticas pode ser ainda menor”, diz.
A antropóloga destaca também que as perdas sociais causadas pelo baixo número de mulheres entre os representantes da cidade afetam a todos, não apenas elas. Segundo Fernanda, se perde o ponto de vista e as experiências de mulheres que, ao estarem nesses espaços, podem trazer inovações e olhares que não são pautados pelos sujeitos, majoritariamente homens e brancos, que ocupam essas posições políticas.
Ainda que o caminho para a conquista da igualdade seja longo, Fernanda diz que o fato de o Brasil ter uma primeira mulher presidenta, um primeiro homem negro presidente de um dos maiores impérios do mundo ocasionam em mudança na forma como mulheres e negros são pensados ou representados no imaginário social.
“De uma perspectiva otimista, podemos pensar que o maior número de mulheres ocupando espaços historicamente entendidos como masculinos abre a possibilidade de que mais mulheres percebam a importância de alcançarem esses postos, de se lançarem na carreira política. Ao mesmo tempo, a gente não pode desconsiderar que esses avanços, muitas vezes são acompanhados de retrocessos, de tentativas de paralisar essas mudanças sociais, de silenciar as mulheres que ocupam esses espaços”, diz.
Por fim, ela destaca a importância de que temas relacionados à violência política, aos discursos de ódio direcionados às mulheres que ocupam esses lugares sejam também considerados. Não é suficiente que as mulheres cheguem nesses espaços, é necessário que elas encontrem condições seguras para poderem trabalhar. E, assim, de fato poder inspirar mais mulheres a ocuparem esses lugares.
“É importante, portanto, que tenhamos uma preocupação de tratar com seriedade os ataques e as práticas violentas que são direcionados às mulheres que ocupam cargos políticos em nosso País”, finaliza.
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