José Sócrates: Que ódio é este?

O Brasil, ou melhor dito, uma parte do Brasil, está doente. Foto: Pixabay

Os ataques à menina de 10 anos, estuprada e grávida, refletem o medo que o Brasil tem de si mesmo. É um país doente

O espetáculo de horror faz o seu caminho para o silêncio. Emudecemos perante as imagens. A menina de 10 anos, novamente agredida, desta vez por aquelas mulheres, por aqueles homens que se manifestam com gestos de violência à porta do hospital. Lá dentro, a vítima, de novo impotente, de novo silenciosa, suporta a nova violação. Felizmente, alguém estava lá com ela, umas quantas mulheres, para que soubesse que não está só. Para os outros, os infelizes que a amaldiçoavam, ela é a culpada. Sim, culpada por existir e por nos fazer lembrar a face sórdida de um país doente. Culpada. Para exorcizar os seus fantasmas, a turba precisa de uma vingança que dure e persista, como o executante terrorista goza o lento e doce estrangulamento do seu refém. No fim, o Estado usa o programa de proteção a testemunhas, seu último recurso. Terá novo nome, nova vida, nova cidade.  De certa forma, os arruaceiros conseguiram o que queriam. No plano civil, a primeira menina deixou de existir.

A ativista política, que gosta de ser fotografada com armas imitando o presidente que apoia, havia revelado ao público o seu nome, o do médico que iria fazer a intervenção e o do hospital onde seria assistida. Certamente, não o fez sem informação e apoio institucional. Por sua vez, o primeiro hospital a quem a família pediu socorro negou a assistência que a lei determina, colocando-se no mais ignominioso lugar que a história reserva aos covardes – lavar as mãos é alimentar a sujeira moral. Depois vem o bispo, aquele que usa a autoridade eclesiástica para legitimar a barbárie e promover a equivalência moral – a violência do aborto é tão terrível quanto o estupro. Depois vem ainda o padre, o inacreditável padre que, cheio de amor no coração, declara que, se o estupro se fazia há quatro anos, então é claro que estava gostando, que gosta de dar. Fica assim claro que os manifestantes são apenas os executantes, a ponta da lança, a tropa de choque. Por detrás, oculta, fica a cadeia de comando institucional e moral. A pergunta que resta é esta – que ódio é este?

Para exorcizar os seus fantasmas, a turba precisa de uma vingança que dure e persista, como o executante terrorista goza o lento e doce estrangulamento do seu refém

Este ódio só na aparência é novo. Bem-vistas as coisas, ele vem de longe. É um ódio histórico. Já o vimos antes, em várias ocasiões e sempre prometendo o paraíso e a salvação. Já o vimos, aqui na Europa, contra o herege, contra o judeu, contra o estrangeiro. Vimo-lo nas guerras civis religiosas com a mesma ambição de unidade e de injunção divina com que se combatia a blasfêmia protestante – um rei, uma lei, uma fé. Vimo-lo no anfiteatro da Universidade de Sevilha, quando o general fascista grita viva a morte!

Convidam-nos a pensar este ódio como demência, ou alienação, ou qualquer outra patologia tão cara aos especialistas dos estados de alma. Não são como nós, dizem-nos. São doentes e, se são doentes, talvez este ódio se cure, o que nos permite ter esperança. Numa outra versão pedem-nos para o pensarmos como consequência social – miséria, desemprego, falha de identidade. Sim, só pode ser responsabilidade da sociedade e da falta de humanidade com que se organiza. Assim, talvez tudo isso tenha solução e possamos pensar numa nova engenharia social para resolver este ódio.  Talvez. Talvez tudo isso seja verdade, mas quero dizer uma coisa – este ódio não nasceu ontem, ele é bem humano e bem antigo. Sartre diria assim sobre o homem que odeia o judeu, o antissemita: É um homem que tem medo. Não de judeus, certamente – dele mesmo, das suas responsabilidades, da sua solidão, da mudança, da sociedade e do mundo, de tudo menos dos judeus. É um covarde que não quer confessar a sua covardia… o antissemitismo, numa palavra, é o medo diante da condição humana.

Foi este ódio que reconheci no comportamento daqueles manifestantes em fúria e dos religiosos que os apoiaram. O mesmo ódio vi-o igualmente quando os juízes (ou juízas, não sei, mas parece-me que foram mulheres) proibiram o presidente Lula de enterrar o irmão. Este ódio não é ódio ao PT coisa nenhuma, é um ódio do Brasil a si próprio, ou, se quiserem, a metade de si próprio, o que vai dar no mesmo. O ódio que esconde o medo. Medo da sua própria história escravocrata. Medo da igualdade. Medo dos novos direitos. Medo da contingência, medo do acaso, medo da diversidade, medo da alegria e medo, ainda, de que essa alegria, que não está longe, seja lembrada. O Brasil com medo de si próprio.

Para um eloquente ministro do Supremo Tribunal Federal, a ameaça democrática é meramente “retórica”. Os acontecimentos, diz, “estão ocorrendo como devem ocorrer”. O ministro precisa se explicar, de acalmar alguns seguidores e ajustar contas consigo próprio e com os acontecimentos que ele mesmo fez acontecer. Comporta-se como o eterno otimista que, tendo caído da varanda do 20º andar, ao passar no oitavo decide fazer o ponto da situação – até aqui tudo bem. Sim, senhor ministro, tudo bem, é só retórica. Acontece que todas as desgraças começaram assim, com retórica. O Brasil, ou melhor dito, uma parte do Brasil, está doente.

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