Megaoperação da Polícia Civil busca prender 100 agressores de mulheres em todo o estado

A Polícia Civil cumpre na manhã desta quinta-feira 100 mandados de prisão em todo o estado contra agressores de mulheres que estão foragidos. Intitulada de Atena, a deusa grega da civilização, sabedoria e da Justiça, a megaoperação prendeu mais de 40 suspeitos até o início da tarde. A ação é do Departamento Geral de Polícia de Atendimento à Mulher (DGPAM) com a participação das 14 Delegacias de Atendimento à Mulher (Deam). Os mandados de prisão foram expedidos pela Justiça após inquéritos policiais concluídos por todas essas delegacias.

Segundo a Polícia Civil, durante a pandemia, apesar de as Delegacias de Atendimento à Mulher terem continuado a atender ao longo de todo o período de isolamento social, houve diminuição dos registros de ocorrência, em alguns casos de até 50% entre março e julho, o que pode refletir o temor das mulheres de denunciar seus agressores.

— O fato de não haver registro não significa dizer que não houve. Se essa mulher está isolada com o seu agressor, em uma situação de confinamento, todos os indicadores de violência estão ali. Contudo, essas mulheres não procuraram registrar por falta de locomoção, medo do homem (que muita das vezes é o provedor da casa) e por medo dela se contaminar pela Covid-19 durante o trajeto até a delegacia — destacou a delegada Sandra Ornelas, diretora do Departamento de Polícia de Atendimento à Mulher.

Agressores de 17 a 70 anos

Segundo Sandra Ornelas, as especializadas têm registros de homens de 17 a 70 anos que agrediram verbalmente, psicologicamente e fisicamente ou até abusaram sexualmente de esposas, netas ou enteadas. Independentemente da escolaridade, de acordo com a delegada, existe agressão.

— (A agressão acontece) porque o homem quer exercer uma relação de poder e controle social. Temos registros com adolescentes de 16 e 17 anos que agrediram suas namoradoras. Até um senhor de 70 anos, com câncer, que estuprou uma neta de 4 anos, em Campos — lembra Sandra.

Segundo Sandra, o maior número de registros de agressões é feito por mulheres pardas e negras. Já o menor número é de mulheres ricas e com alto índice de escolaridade.

— A agressão vai acontecer independente se ela tem escolaridade ou não, mas mulheres de maior escolaridade registram pouco. Em sua maioria, não querem escândalo. Elas temem que macule sua imagem e também por pensarem que serão julgadas. Muitas das vezes, se separam e vão para o psicólogo. Já as mulheres negras e pardas registram mais.

Segundo Sandra Ornelas, vítimas que moram em comunidades não costumam fazer registros, seja por medo do marido ou dos chefes tráfico de drogas daquela localidade.

— Fazer um RO (registo de ocorrência) é chamar a polícia para dentro da comunidade. Então, elas temem procurar ajuda. Para elas, chamar a polícia é sofrer violência duas vezes: ou pelo marido ou pelo tráfico de drogas.

Agressor alega que agiu legitimamente

Segundo Sandra Ornelas, muitos agressores alegam que agiram legitimamente.

Eles justificam que são homens de bem e não criminosos, e que a mulher não faz o papel dela. É uma masculinidade frágil. Eles inventam uma situação que leva à agressão. Essa é uma relação de poder. Essa possessividade aumenta quando há um declínio sexual do homem. A agressão fica maior. Havendo a primeira violência, denunciem.

De acordo com o Monitor de Violência do Instituto de Segurança Pública (ISP), “é extremamente relevante dizer que a redução do número de registros não significa que a violência contra a mulher esteja diminuindo, mas, sim, que pode haver subnotificação neste período de isolamento social.”

Segundo a Polícia Civil, com a flexibilização do isolamento social, houve um considerável aumento do número de registros durante o último mês (julho/2020).

A operação desta quinta-feira é em alusão aos 14 anos da Lei Maria da Penha. Segundo a polícia, a operação desta quinta não inclui agressores que vivem em comunidades em razão da restrição imposta pela decisão do Supremo Tribunal Federal.

Em 2019, somente as Deams indiciaram 16.703 autores de violência doméstica e familiar de diversas formas contra mulheres, além de 20.930 solicitações de medidas protetivas de urgência, tendo hoje, como resultado desse trabalho, inúmeros mandados de prisão a serem cumpridos.

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