Menina de dez anos entrou em hospital em porta-mala de carro enquanto médico distraía religiosos

Manifestantes foram até a porta do hospital onde a menina realizaria o procedimento para tentar impedir o aborto

A menina capixaba de dez anos vítima de seguidos estupros não precisou só viajar a outro estado para fazer valer o seu direito a um aborto. Ela também teve que se esconder no porta-malas de um carro para entrar no hospital no Recife (PE) enquanto o médico e diretor da unidade, Olimpio Moraes, atraía para o portão principal os fanáticos religiosos e políticos que se dividiam e bloqueavam todas as entradas para impedir a garota de realizar o procedimento.

A perseguição veio desde o aeroporto, onde anotaram a placa do veículo, conta Olimpio, o obstetra pernambucano que desde 1996 faz abortos pelo SUS e dirige o Centro Integrado de Saúde Amaury de Medeiros (Cisam), o primeiro a realizar abortos legais no Norte-Nordeste. São cerca de 50 desses procedimentos por ano, entre 30 e 40 relacionados a estupros.

Desta vez, o arcebispo de Olinda e Recife, dom Antonio Fernando Saburido, disse lamentar “a morte da menina de cinco meses. O mandamento destacado por Jesus no texto que citamos inicialmente foi mais uma vez desrespeitado.”

Mas Olimpio afirma que “nunca tinha visto algo parecido nesses anos todos” e acha que as cenas de domingo refletem a polarização política. “Fiquei assustado. O ódio e a intolerância conseguiram se organizar publicamente. É reflexo da força político-partidária que os movimentos religiosos têm tido ultimamente. Essas forças já existiam, mas não tinha projeção dentro do Estado, não faziam política pública”, diz.

O médico, que anos atrás se dizia otimista em relação aos avanços dos direitos da mulher, agora vê um retrocesso. “Realmente acho que o Brasil piorou. Está mais difícil. Mas acredito que o lado bom do brasileiro é maioria. As pessoas boas também estão se organizando”, afirma.

Integrantes de movimentos feministas estiveram no hospital para protestar a favor do direito da menina capixaba de realizar o aborto. Olimpio afirma que mesmo o aborto legal ainda é difícil no Brasil, apesar de permissão em casos de estupro, de risco à vida da mãe e de anencefalia no feto. E um dos principais empecilhos é o comportamento de médicos e funcionários em relação às pacientes.

O primeiro hospital em que a menina de dez anos tentou realizou o aborto, em Vitória, se negou a fazer o procedimento alegando falta de capacidade técnica para expelir o feto após 22 semanas de gestação -a garota estava com 22 semanas e quatro dias.
Olimpio diz que a proibição do aborto fora desses três casos previstos em lei só interessa aos médicos criminosos, que fazem o procedimento ilegalmente, cobrando valores em torno de R$ 5.000.

Manifestantes foram até a porta do hospital onde a menina realizaria o procedimento para tentar impedir o aborto

(Foto: Reprodução / Redes Sociais)
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