No tempo da distração

O sol de janeiro ardia e imperava sobre os ilhéus de maneira tão abrasiva  quanto o que hoje nos alumia, mas o povo sofria muito mais com a canícula, sem poder aliviar o calor sequer com um prosaico banho de mar.
Até 1920, banhar-se nas águas de qualquer das duas baías, na praia do Vai-Quem-Quer ou na Praia do Müller,  era “postura” punida pelo Código Municipal. Dava multa e até cadeia, “por atentado ao pudor”.

O mesmo sol de janeiro incomodava o ilhéu na segunda metade do século 19, quando “tomar a fresca”, ao cair da tarde, munido de duas cadeiras e línguas afiadas para o exercício da fofoca – era, talvez a única diversão proporcionada ao povo, quando não havia circo ou algum espetáculo bizarro na cidade.

Rua Conselheiro Mafra, no Centro de Florianópolis – Foto: Arquivo/Foto Flavio Tin/ND

Bizarrices, é verdade, não faltavam. Circos de pulgas amestradas, por exemplo, eram “programas” de grande apelo popular, instalados na varanda de alguma casa da rua “do Senado”, ou “Moinhos de Vento”, hoje Felipe Schmidt. Mas também havia prestidigitadores, encantadores de lesmas (!), um “árabe-serpente”, várias “mulheres-aranha”, um “homem de borracha”, de nome Azi Cherife,  e até uma grande estrela – o mágico Hermann, que se anunciava como “magnetizador e prestidigitador”, coadjuvado pela “sonâmbula Lucrécia”…

Houve, nos anos 1950, outro mágico, Karmaya, que hipnotizou toda a plateia do Teatro Álvaro de Carvalho. Todos tocando um imaginário piano, inclusive o cronista que toca estas teclas….

Em “O Povo se distrai, mas nem sempre se diverte”, capítulo de suas “Memórias do Desterro”, Oswaldo Cabral sobrevoa com graça e bom humor a pobre ribalta ilhoa, que se esforçava para divertir o povo –  numa época em que, no verão, sequer havia o hábito da “praia” para o refrigério dos viventes…

Mas havia sortidos espetáculos, “a preços vis para a arraia miúda”, como o apresentado em 1862 pelo italiano Pacozzi Stephano no seu “Salão Paraíso” – e “seus ratos amestrados”… Duas sessões por dia, cada uma durando uma hora. O amestrador comandava  os seus “40 roedores inteligentes”, “de procedência indiana, japonesa, americana e brasileira, sucesso estrondoso em todas as capitais da Europa e do Brasil, tendo sido apreciados inclusive pelos reis Vitor Emanuelle, da Itália, e Imperador D. Pedro II”…

Os “artistas” do finório italiano subiam em mastros e cordas, levavam cartas ao Correio, levantavam pesos, faziam exercícios de ginástica num trapézio, ateavam fogo numa peça de roupa e depois extinguiam as chamas, como “bombeiros comunitários” – o que provocou incêndios “verdadeiros”  em pelo menos duas apresentações. As duas grandes estrelas eram o rato Francisco, sacristão, que tocava sino, e o “Marquês Simão”, um rato-cartola, que contava dinheiro e tinha mordomo – que o ajudava a apear de uma carruagem puxada por um terceiro rato, esse um escravo, coitado.

Havia “gente de pé para ver a rataria”, registrou o jornal O Argos, que não deixaria de se reportar a uma estranha Companhia, o “Circo Cerino & Marius”, armado na rua da Carioca (Largo Fagundes, centro), cuja principal atração era o grande concerto musical executado por 25 gatos. Espetáculo conduzido pelo palhaço Marius, que também comandava uma dança cômica estrelada por oito galinhas amestradas…

Pulgas, lesmas, galos, ratos, rãs, cobras  –  todo tipo de animal, como um celebrado “jegue falante”, animava os palcos e os picadeiros da Ilha, onde não faltava o “Mondo Cane” dos “descompensados, aleijados ou deficientes”, como um anão que dançava e tocava pistão a 500 réis por pessoa, num cortiço da rua Augusta – hoje Conselheiro Mafra.

Pensando bem, nada mau para quem não podia, sequer, tomar um banho de mar. Para aqueles tempos sem telinha, até que não se podia reclamar das “variedades” dos shows em cartaz…

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