Por que ficou mais difícil se concentrar para ler na quarentena da Covid-19?

Dom Quixote não sai do lugar. Bentinho está devagar. Raskolnikov e Macunaíma ainda dormem no sofá da sala. Uma das queixas mais recorrentes durante a pandemia é a dificuldade de concentração em leitura. “Travados” ou “presos” nas primeiras páginas, leitores confessam falta de foco para seguir adiante.

O psicanalista Newton Molon, de 52 anos, é quem descreve em detalhes essa sensação de falta de aptidão ou tempo para leituras mais dedicadas. “No começo da pandemia, cheguei a experimentar algumas semanas de aumento de produtividade em tarefas intelectuais como a escrita, a leitura e o estudo. Cheguei a pensar que finalmente sairia de Os Caminhos de Swann e percorreria o trajeto todo de Marcel Proust. Também achei que daria para aprender russo e aperfeiçoar o inglês”, afirmou.

Mas durou pouco a sensação. “Com um mês em quase absoluto confinamento, comecei a notar o início de um desconforto interno, uma inquietação persistente, uma certa irritabilidade, uma forma de angústia que reduzia a capacidade, ou o desejo de concentração. De uma média de 300 páginas por semana, fui reduzindo significativamente o ritmo de leitura, a ponto de atravessar semanas em que um capítulo de qualquer coisa parecia tarefa impossível.”

No início da pandemia de covid-19, muita gente imaginou que “ficar em casa” representaria uma maior possibilidade de se dedicar aos livros. Não foi o que aconteceu. “Antes, eu comia livros. Intercalava romances com livros mais técnicos. No meu caso, o que está acontecendo é uma estafa de tela”, disse a pesquisadora de comportamento de consumidor Beth Castilho, de 48 anos.

Beth explica o que ela chama de “estafa de tela”. “Há algum tempo, doei quase todos os meus livros. Fiquei apenas com as obras técnicas e afetivas. Então, costumo ler obras novas no Kindle. Só que agora vivemos uma overdose de tela. Faço reuniões de trabalho, encontro com amigos e familiares por chamadas de vídeo. Na hora da leitura, já estou cansada”, diz.

Diferentemente do que muitos imaginam, sair de casa era um fator fundamental para o fluxo de leitura. “Eu lia muito no transporte público. No trem ou no metrô, eu estava sempre lendo. Esse tempo de deslocamento era o meu tempo de leitura. O horário de almoço, no meu trabalho, também era dedicado à leitura”, contou a jornalista Gabriela Santos, de 28 anos. “No começo da pandemia, eu me sentava para ler, tentava me concentrar, mas, em pouco tempo, eu tinha que voltar para o início da página porque tinha perdido algo”, completou.

A rotina de casa é mesmo um dos empecilhos para a retomada da leitura da empresária Bia Andari, de 46 anos. “Está tudo muito misturado. A vida doméstica, familiar e o trabalho estão acontecendo ao mesmo tempo. Tem o meu filho direto em casa, com aulas online… Com tudo ao mesmo tempo, não produzimos direito em nenhuma frente. Parei Os Buddenbrook (escrito por Thomas Mann) na página dez”, confessou.

Em tempos de pandemia, livros mais densos estão sendo deixados para depois. A médica Ludmila Campos, de 44 anos, que teve covid-19, conta que, na época em que esteve doente, só conseguia ler infantojuvenis. “Eu consigo ler, mas tenho a sensação de a concentração ou a compreensão não ser a mesma”, disse. “Agora estou em um ritmo razoável, mas sinto que não é a mesma coisa.”

O compositor e cantor Hélio Gomes Ramalho, de 38 anos, também está sentindo os efeitos da pandemia em seus hábitos de leitura. “Por conta da pandemia, vivemos um momento de preocupação e ansiedade. Para eu entrar em um livro, preciso estar totalmente focado. Atualmente, está muito difícil.”

Razões

A psicóloga Tatiana Chain Fernandez, de 53 anos, tem passado por diversas fases durante a pandemia. Tentou ler contos, romances e clássicos, mas, quando se dava conta, estava com o pensamento longe. “Tinha uma sensação de que estava perdendo tempo lendo coisas muito distantes daquilo que estava vivendo”, disse. “Meu ritmo de leitura melhorou quando escolhi livros que tinham a ver mais com reflexões sobre o meu momento de vida”, afirmou. Como psicóloga, Tatiana acredita que a ansiedade que vivemos por conta da covid-19 cria uma aceleração, uma inquietação, um excesso de estímulo que não beneficia a leitura.

Para o também psicólogo Fábio Camilo da Silva, de 41 anos, fatores como falta de sono e estresse são importantes nesse quadro de falta de foco. “A dificuldade em dormir prejudica nossas capacidades cognitivas. Isso é muito comum em quadros de ansiedade, estresse e depressão. As pessoas estão vivendo uma fase de excesso de preocupação com o trabalho e a saúde – e estão sem condições de focar em algo como leitura”, explicou. Ele diz que a leitura precisa ser associada ao prazer. “As pessoas precisam parar de se cobrar a leitura de 4, 5 livros por mês. Para retomar o foco, primeiro, é preciso entender que leitura é prazer.”

O psicanalista Newton Molon, que, como vimos no início da reportagem, também está sentindo dificuldades em se dedicar à leitura, tem algumas teorias para o “bloqueio coletivo”. “Talvez a não concentração para a leitura seja um mecanismo defensivo do nosso psiquismo contra o confisco total da nossa atenção pela realidade digital. Ou talvez seja exatamente o contrário, a preguiça de ler prenunciando o ocaso dessa antiga forma de transmissão do legado humano. Ainda não dá para saber. Quem sabe é apenas o efeito das ondas de luz da tela no córtex frontal”, disse.

Mais leitura

Claro, nem todo mundo está “travado” ou sem foco para ler. Para algumas pessoas, o efeito da pandemia e distanciamento social foi exatamente o contrário. “Estou lendo muito mais. Antes, eu tinha muita coisa para fazer na rua. Ia a exposições, ao cinema e saía para ver os amigos. Agora, compro livros pela internet e acho uma delícia ficar lendo em casa”, contou a figurinista Julia Alcântara, de 40 anos.

Roberta Paixão, uma das proprietárias da livraria Mandarina, afirmou que o número de leitores e a quantidade de livros lidos tem aumentado. “Muita gente adquiriu o hábito de leitura neste período. E, mais do que isso, estão conseguindo retomar aqueles livros que estavam na prateleira do ‘um dia ainda vou conseguir ler’”, disse. “As pessoas estão com tempo de encarar A Montanha Mágica (Thomas Mann), 2666 (Roberto Bolaño), Ulisses (James Joyce) e outros.”

Roberta também promove grupos de leitura online por meio da livraria Mandarina. “Nossos grupos de leitura contam com aproximadamente 40 pessoas por vez. Aumentou muito a procura e estamos abrindo novos grupos. Na minha experiência, a dedicação pela literatura não diminuiu na pandemia”, disse.

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