Trump encoraja eleitores da Carolina do Norte a votarem duas vezes, apesar disso ser ilegal

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, sugeriu na quarta-feira que os eleitores da Carolina do Norte, estado no Sudeste americano, cometam fraude eleitoral. Trump insinuou que a população deve tentar votar duas vezes para testar a segurança do sistema, intensificando sua cruzada contra o voto por correspondência.

Trump fez o comentário ao ser indagado sobre sua confiança na votação postal, que afirma, mesmo com evidências contrárias, ser mais vulnerável a fraudes. Devido à pandemia de Covid-19, o número de votos por correspondência deve bater recorde, e a maior participação no pleito é vista pela campanha do presidente como favorável para seu adversário, o democrata Joe Biden.

— Deixem eles enviarem [pelo correio] e deixem eles irem votar e, se o sistema for tão bom quanto dizem que é, então obviamente isso não será possível — disse o presidente em entrevista ao canal WECT-TV. — Se não for tabelado, eles poderão votar.

A Carolina do Norte é um dos estados-pêndulo, onde não há predomínio democrata ou republicano — o que a torna ainda mais importante para quem pleiteia a Casa Branca. Segundo o site Real Clear Politics, as pesquisas estaduais apontam que Biden e Trump estão tecnicamente empatados, com o democrata na frente por 0,3 ponto percentual. Em 2016, Trump derrotou Hillary Clinton no estado por 49,8% contra 46,2%.

“Hoje o presidente Trump escandalosamente encorajou os cidadãos da Carolina do Norte a descumprirem a lei para ajudá-lo a instalar o caos na nossa eleição”, disse Josh Stein, procurador-geral da Carolina do Norte, via Twitter. “Garantam que vocês votem, mas não votem duas vezes”.

Fraudes são raras

Segundo um estudo de 2017 do Centro Brennan para a Justiça, o índice de fraude nas eleições americanas varia entre 0,00004% e 0,00009%. Diversos estudos nacionais e estaduais ao longo dos anos mostraram que não há qualquer sinal de irregularidades generalizadas nas eleições americanas e, em 2016, cerca de 25% dos eleitores votaram por carta.

Comentando a fala de Trump, o secretário de Justiça dos EUA, William Barr, afirmou que nunca houve votos a distância nesta proporção e que o presidente apenas estava tentando demonstrar as dificuldades de monitorar o voto pelo correio. Questionado sobre a ilegalidade de votar duas vezes, Barr disse que não conhecia em detalhes a legislação da Carolina do Norte.

Apesar de ser ilegal, a sugestão do presidente, segundo o New York Times, é algo que vem sendo discutido a portas fechadas por seus conselheiros. Aliados temem que a retórica presidencial contrária ao voto por correspondência seja como um tiro no pé, podendo fazer com que seus próprios eleitores não compareçam às urnas.

Ao NYT, o porta-voz do Conselho Eleitoral da Carolina do Norte disse que, caso uma pessoa que votou por correio tente fazê-lo novamente, será impedida pois sua participação já constará no sistema. Ele também reforçou que “votar duas vezes intencionalmente é um crime”.

Facebook anuncia mudanças

Em paralelo, em uma tentativa de evitar maiores confusões, o Facebook anunciou nesta quinta uma série de mudanças para evitar informações falsas e interferências políticas no pleito. Em algumas de suas medidas mais duras até o momento, a rede social disse que vai bloquear propagandas políticas em sua plataforma na semana anterior ao pleito, mas anúncios anteriores não serão afetados. Também serão implementadas ações para limitar as tentativas de dissuadir o voto, que é facultativo nos EUA.

Em uma postagem, Mark Zuckerberg escreveu que o Facebook está preocupado com os desafios que as pessoas podem enfrentar para votar em meio à pandemia e com o tempo que pode levar para que o resultado do pleito seja conhecido. Em razão do grande número de votos pelo correio, especula-se que se pode levar dias ou semanas para que um vencedor seja declarado. A possibilidade de que o perdedor não reconheça sua derrota, algo já sugerido por Trump, também preocupa especialistas.

“Todos nós temos uma responsabilidade de proteger a nossa democracia”, escreveu o fundador da rede social. “Vai demandar um esforço conjunto de todos nós — partidos políticos e candidatos, autoridades eleitorais, a mídia e redes sociais, e dos eleitores também — para que correspondamos às nossas responsabilidades.”

A plataforma busca evitar uma repetição de 2016, quando russos a utilizaram para disseminar conteúdo com o objetivo de influenciar o eleitorado americano. Desde então, Zuckerberg investiu bilhões de dólares para aumentar a segurança do sistema, mas ainda assim é alvo constante de críticas, especialmente no que diz respeito a informação falsas. Ele se recusa a removar postagens ou propagandas políticas com informações enganosas, apontando para a liberdade de expressão — argumento do qual muitos de seus funcionários discordam.

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